Centro do Rj
Um sábado que floresceu no centro do Rio
Sábado, 7 de março.
Alguns dias começam com uma espécie de promessa silenciosa. Não sabemos exatamente o que vai acontecer, mas sentimos que algo interessante pode surgir no caminho.
Escolhi meu look com esse espírito leve de quem está aberta às descobertas: uma saia jeans com pregas, bem feminina, combinada com uma camiseta branca estampada com pequenos desenhos de flores e a frase “No rain, no flowers”, sem chuva, não há flores.
Uma frase simples, mas cheia de significado.
Nos pés, um tênis no mesmo tom e vibe da saia, perfeito para caminhar pela cidade. A bolsa branca acompanhava a leveza da blusa e finalizei com acessórios dourados, discretos e delicados.
Era um visual alegre, confortável e cheio de movimento. Ideal para um dia de passeio pelo centro do Rio.
O plano inicial era revisitar o majestoso Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Meu marido e eu estávamos determinados a finalmente conseguir participar da visita guiada.
Chegamos animados.
Havia bastante gente, o que só aumentava minha expectativa. Caminhamos até a bilheteria quase em clima de vitória antecipada.
Uhu!
Mas o entusiasmo durou pouco. Todos os ingressos já estavam vendidos. Uma pena!
Fica aqui a dica para quem quiser tentar: chegue cedo. Por volta das 10h da manhã. Aos sábados são apenas duas visitas guiadas, às 11h e às 12h15, e os ingressos desaparecem rapidamente.
Semana que vem tentaremos novamente.
Sem roteiro definido, seguimos caminhando pelas ruas do centro. E foi nesse caminhar despretensioso que algo curioso aconteceu: percebi que já não olho a cidade da mesma forma.
Desde que comecei a estudar jornalismo, o mundo parece ter ganhado novas camadas.
Os prédios antigos não são apenas prédios. São narrativas. São testemunhas silenciosas do tempo.
Cada fachada parece contar uma história.
Talvez a realidade seja muito mais complexa do que imaginávamos.




E confesso: tenho me apaixonado cada vez mais pela ideia do fotojornalismo — essa arte de capturar histórias que muitas vezes passam despercebidas.
Caminhando mais alguns quarteirões, chegamos a uma pequena praça com uma bela escultura. Foi ali que fizemos uma descoberta inesperada: o CRAB – Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro, é um espaço criado para revelar ao público a importância cultural, social e econômica do artesanato brasileiro. Mais do que um centro expositivo, ele funciona como uma vitrine da criatividade popular do país.
Ali, o artesanato dialoga com o design, a moda, a arte e a cultura contemporânea.
Antes mesmo de entrar na exposição, passei por uma loja de artesanato simplesmente encantadora. Cada peça parecia carregar uma história.
Infelizmente não tirei fotos.
Logo depois, um senhor muito simpático, o segurança do espaço, nos informou que havia exposições acontecendo lá dentro. Bastava fazer um cadastro.
Entrada gratuita. Claro que entramos.
Logo na primeira sala havia uma cadeira curiosa. Daquelas que despertam imediatamente a curiosidade.
Sentei. Por um segundo tive a impressão de que ia cair. Ri de nervoso.





Em seguida começamos a percorrer a exposição Curvas Pantaneiras.
Fiquei impressionada com o nível de detalhe de cada obra. São artistas que transformam materiais simples em narrativas cheias de identidade.
A mostra apresenta peças criadas por artesãos do Mato Grosso do Sul, revelando a vida, a cultura e a relação profunda do povo pantaneiro com a natureza. Inspirada nas formas sinuosas do bioma Pantanal, a exposição reúne trabalhos produzidos em cerâmica, madeira, fibras, tecidos, papel machê e bordados.
Cada peça parece traduzir o cotidiano da região: a fauna, o modo de vida e a convivência harmoniosa entre o ser humano e o ambiente natural.
Segundo a curadoria da mostra, o objetivo é convidar o visitante a uma imersão nas tradições e saberes que moldam a identidade pantaneira, revelando a originalidade e a força do artesanato sul-mato-grossense.
Ao caminhar pela galeria, a sensação é clara: mais do que objetos decorativos, aquelas obras carregam histórias de vida, memória cultural e uma profunda conexão com a natureza.





Seguimos então para a exposição Mata Viva.
Logo na entrada, a experiência já começa de forma impactante, com uma cena que remete a uma queimada, um convite imediato à reflexão sobre a relação entre natureza e humanidade.
A exposição é um verdadeiro mergulho sensorial na diversidade natural e cultural do Brasil. São mais de 260 peças criadas por 65 artesãos de várias regiões do país, produzidas a partir de materiais dos nossos biomas, da Amazônia à Mata Atlântica, passando pelo Cerrado, Pantanal, Caatinga e Pampa.
O percurso acontece em oito galerias, onde madeiras, sementes, palhas e argila ganham forma nas mãos de mestres artesãos brasileiros. Sons de animais e rios acompanham o visitante, criando uma atmosfera imersiva que aproxima ainda mais o público da natureza.
Entre tantas obras impressionantes, uma que especialmente me tocou foi a figura delicada de um pequeno indígena logo na primeira sala. Uma peça sensível que parece lembrar, de forma silenciosa, a continuidade e a resistência das culturas indígenas no Brasil.
Ao longo da exposição, percebemos que não se trata apenas de artesanato. É uma narrativa sobre território, memória e identidade. Um retrato do Brasil feito à mão.
O cenário da exposição também impressiona. Todo o espaço, foi transformado em paisagens inspiradas nos biomas brasileiros, com cenografia produzida por artistas que trabalham nas grandes escolas de samba do Rio de Janeiro.
Na última sala, um grande mapa do Brasil bordado por bordadeiras da comunidade do Morro da Providência, no Centro do Rio, encerra o percurso de forma simbólica, como se cada ponto costurado representasse um pedaço da nossa diversidade cultural.
Saí dali com a sensação de ter atravessado um pequeno Brasil dentro de um único espaço.
Percorrer por aquela salas te faz refletir sobre o quanto nosso país é plural.
10 / 19
A última sala parecia resumir o país inteiro.
Natureza. Cultura. Diversidade. Brasil.
Depois dessa visita seguimos caminhando até chegar finalmente à Feira do Lavradio, localizada na histórica Rua do Lavradio.
Sol forte, calor de verão carioca.
Logo na entrada fomos recebidos por um vendedor de cerveja com aquele jeito tipicamente brasileiro: simpático, receptivo e cheio de bom humor.
Resultado? Minha primeira cervejinha bem gelada do dia.
Entre uma barraca e outra parecia existir uma espécie de filosofia silenciosa da vida.
Pessoas caminhando, conversando, rindo.
Gente feliz.
Todos pareciam compartilhar a mesma sintonia: apreciar o passado, viver o presente e imaginar o futuro.
Cada banca parecia carregar um pedaço da cultura popular brasileira.
Escolhemos um cantinho e ali ficamos por boa parte da tarde, ouvindo música brasileira com o grupo Samba 70 e observando os artistas populares, gente que vive da própria criatividade.
Carioca sendo carioca. Simples assim.








Saí dali com uma sensação muito bonita de pertencimento.
Pessoas diferentes.
Histórias diferentes.
Estilos diferentes.
Mas todas conectadas por algo muito simples: o desejo de ser feliz.
Isso se refletia em tudo.
Nos rostos.
Nos sorrisos.
Nos cabelos.
Nas roupas.
A palavra que define aquele lugar é diversidade.
Estudar jornalismo tem me mostrado algo importante: precisamos desenvolver senso crítico.
Principalmente nós, mulheres.
Muitas vezes seguimos padrões que nos foram ensinados sem sequer questionar. Talvez porque as mulheres que vieram antes de nós também não tiveram essa oportunidade.
Por isso vale sempre perguntar: por que quero vestir isso?
Por que quero frequentar determinado lugar?
Isso realmente tem a ver comigo?
Minha essência tem amado essa diversidade que tenho observado com um olhar cada vez mais fotojornalístico.
Então deixo aqui um convite: vá ao centro do Rio. Observe as pessoas, a cultura. Observe a vida acontecendo nas ruas.
Veja como visitantes de diferentes lugares se encantam com aquilo que muitas vezes nós mesmos deixamos de perceber.
A alegria brasileira é contagiante.
E talvez essa seja a maior lição daquele sábado.
A cultura vive nas ruas.











