O fim de ano sempre chega meio torto.
Nunca no momento certo, nunca com o aviso prévio que a gente gostaria. Ele simplesmente aparece, se senta ao lado e começa a fazer perguntas que ninguém pediu, mas que ninguém consegue ignorar.
Todo mundo corre atrás de promessas novas, como quem troca a roupa da vitrine achando que a mudança acontece ali. “Ano que vem vai.” Vai o quê, exatamente? A vida não responde. Ela observa.
Há uma exaustão silenciosa em dezembro. Não é cansaço físico, é desgaste de sustentar versões que já não servem. O corpo denuncia antes da mente admitir. Ele pesa. Ele pede pausa. Ele não quer mais se explicar.
Percebo que não é o tempo que muda no fim do ano. É a tolerância. A gente para de aguentar o que vinha aguentando por inércia. Algumas conversas ficam impossíveis. Certas roupas apertam de um jeito diferente.
O espelho, nessa época, é menos cruel do que honesto. Ele não cobra beleza. Cobra presença. Mostra onde a gente ainda está tentando caber e onde já não tem mais como fingir. Há roupas que falam alto demais quando tudo o que a gente quer é silêncio. E há aquelas que, sem fazer alarde, sustentam quem a gente se tornou.
Encerrar um ano não é fazer lista. É aceitar perdas pequenas que ninguém aplaude: a perda da pressa, da ilusão, da necessidade de provar. É perceber que algumas batalhas não eram coragem, eram medo de parar.
O novo ano exige alinhamento. Não pede um plano mirabolante, pede um corpo em acordo com a própria vida. Talvez por isso a virada nunca aconteça à meia-noite. Ela acontece numa tarde qualquer, quando a gente decide não insistir mais.
2026 não chega como promessa. Chega como consequência. Do que foi escutado, do que foi encerrado, do que finalmente encontrou chão.
No fundo, o fim de ano não quer saber quem você vai ser.
Quer saber se você vai continuar se abandonando.
E essa resposta não se escreve numa lista.
Se sustenta, em silêncio, todos os dias.
Jaqueline Fonseca








