Um país no fio da navalha
O Brasil atravessa, neste setembro de 2025, uma de suas fases mais turbulentas desde a redemocratização. As ruas voltaram a ser palco de disputa simbólica e política, e a palavra de ordem ecoada em multidões de Norte a Sul é clara: “Sem anistia”. Não se trata de um slogan vazio, mas da síntese de um medo coletivo: o de ver a democracia convertida em moeda de barganha.
No dia 21 de setembro, manifestações ocorreram em 33 cidades brasileiras, abrangendo todas as capitais. Só em São Paulo, a Avenida Paulista reuniu cerca de 42,4 mil pessoas, segundo levantamento da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a ONG More in Common. No Rio de Janeiro, o número foi similar: aproximadamente 41,8 mil manifestantes. (Agência Brasil, AP News)
Esses dados desmontam a ideia de que a política estaria restrita às redes sociais. O corpo físico voltou à cena, e com ele uma dimensão estética de poder: cartazes, camisetas, bandeiras e cores transformaram as ruas em passarelas de indignação.
As frentes do conflito
- PEC da Blindagem
A proposta de emenda constitucional que busca exigir autorização do Congresso para processar parlamentares é vista por juristas e movimentos sociais como um retrocesso institucional. Embora tenha avançado na Câmara, o Senado já soma 51 vozes contrárias à sua aprovação. - PL da Anistia
O projeto de lei que concederia perdão amplo a envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023 gerou ainda mais indignação. Para críticos, trata-se de apagar responsabilidades e abrir precedente perigoso de impunidade. - Mobilização cultural e simbólica
Os protestos contaram não apenas com partidos e sindicatos, mas também com artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, reforçando a narrativa de que a arte é uma forma de resistência democrática.
A opinião pública
Uma pesquisa divulgada pela revista IstoÉ revela que 57,3% da população brasileira rejeita qualquer forma de anistia aos envolvidos em tentativas de golpe. O levantamento, feito entre 10 e 14 de setembro com 7.291 entrevistados, traz margem de erro de 1 ponto percentual.
Isso significa que o clamor das ruas ecoa no sentimento da maioria. O “Sem anistia” não é grito de nicho, mas reflexo de um pacto social que exige justiça como pilar democrático.
O peso da imagem e a disputa dos símbolos

A bandeira nacional é talvez o melhor exemplo dessa turbulência. Apropriada pela extrema direita nos últimos anos, voltou aos atos de setembro como objeto de disputa: rejeitada por uns, reivindicada por outros como patrimônio comum.
Esse conflito estético mostra que a política não se resume a projetos de lei. É também uma batalha simbólica. O cartaz improvisado, a camiseta preta, a canção entoada em coro, tudo é parte da narrativa. E, como lembrou o ministro do STF Gilmar Mendes, que elogiou os atos, trata-se da “força do povo brasileiro na defesa da democracia”.
Os riscos dessa encruzilhada
- Retrocesso institucional: Se aprovada, a PEC da Blindagem criaria um sistema de proteção inédito, dificultando a responsabilização de parlamentares.
- Erosão da democracia: A anistia ampla sinalizaria que atos contra o Estado de Direito podem ser negociados politicamente.
- Radicalização: A sensação de impunidade ou injustiça pode alimentar discursos extremos e aumentar o risco de confrontos.
- Impacto eleitoral: Essas disputas já desenham o tom das próximas eleições — quem defende justiça versus quem busca blindagem.
A estética da justiça
O Brasil não discute apenas leis; discute símbolos. O que está em jogo não é apenas a aprovação ou rejeição de propostas no Congresso, mas o tecido emocional e simbólico da democracia.
Quando as ruas se enchem de vozes, não é apenas para protestar: é para vestir a memória, afirmar valores e mostrar que justiça não é abstração. É estética, é presença, é pacto coletivo.
“Sem anistia” é mais que uma frase de efeito. É um lembrete de que a democracia não pode ser esquecida, silenciada ou vestida de conveniência. Ela precisa ser visível, como uma cor vibrante que se recusa a desbotar.











